Exploração - Peru 🇵🇪
- iamfromsouthamerica
- 1 de fev. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 1 de fev. de 2024

Em "Exploração", Gabriela Wiener fala de sua identidade (e por tabela, da identidade da América Latina) através de suas reflexões sobre o seu tataravô Charles Wiener. Esse ensaio (ou novela de autoficção?) trata sobre as influências de suas origens, indígenas e européias, em como ela se vê e como é vista e tratada pela sociedade.

Quando estamos perdidos, é comum recorremos a nossa identidade e antepassados para encontrar novamente nosso caminho ou pelo menos um rumo. Mas o que ocorre quando o sobrenome que carregamos pertence aos nossos algozes?
Sob a influenciada da morte de seu pai e uma exposição sobre os incas em uma galeria francesa, Gabriela mergulha nos relatos de seu antepassado cientista explorador, ou como ela mesma chama, o huaquero (assaltantes de áreas sagradas dos povos incas que roubavam objetos e corpos para serem levados a Europa). Ela toca em assuntos como auto-imagem, racismo, sexualidade e desejo voltado a corpos brancos, abusos disfarçados de ciência e todos os subprodutos da colonização que continuam reverberando até hoje.
Difícil não se identificar. Cresci no tempo de uma escola que ensinava as crianças que nós brasileiros éramos a perfeita mistura de 3 povos: os europeus, os indígenas e os africanos. No entanto, a verdade era implícita, todos sabiam que o orgulho de sua origem só podia ser exposto se a porcentagem européia fosse maior e se revelasse na pele. E esse livro, apesar de incomodo em diversos pontos, coincide muito com alguns questionamentos meus.

O título do livro nos três idiomas em que foi publicado transmitem o livro como um todo para mim. Em espanhol, Huaco Retrato faz referências aos objetos com esculturas dos rostos indígenas do império inca. A autora compara seu rosto como sendo igual ao de um Huaco Retrato. Os mesmos huacos que foram roubados de solo sagrado por seu tataravô em nome da ciência.
Em português, o título é Exploração demostra a linha tênue que conecta o Aventureiro Explorador a Exploração. Começando pela exploração dos espanhóis no território americano e chegando ao preconceito espanhol com os imigrantes da América do Sul tratados somente como uma mão de obra barata. De forma similar, os aventureiros exploram levando objetos sagrados e de valor para os museus europeus, ou pessoas de diferentes locais para zoológicos humanos.
Já em inglês, Undiscovered (Não Descoberta) traduz as reflexões da autora sobre si. Em uma busca por sua personalidade, gostos e seus sentimentos, para além de seu corpo racializado. Ou exatamente entendendo quem é e como se relaciona por ser marrom, chola e sudaca.

O contraste da violência e sutileza do racismo está presente em diversas cenas. Como a de Lucre quando criança, ou da Gabriela ao conhecer a avó de sua esposa. Começando meio que num tom de distração, ou como uma "piada leve" (bem no estilo avoada, lokita fresh como diz o comunicador Renato Duarte). Naquele tom de racismo distraído, que deixa a vítima constrangida de reagir.
Gabriela Wiener é conhecida pela autoexploração de assuntos como relacionamentos monogâmicos e poliamorosos, sexo, maternidades. Ela traz neste livro o viés da colonização para esse assuntos. Sua escrita é envolvente, franca e forte, instigando pensamentos e julgamentos sobre um olhar que foi renegado dos livros por muitos tempo.
Mas um corpo rejeitado, marrom, é estático, viveu muito tempo na clandestinidade e todo dia volta a se sentir o corpo de uma menina do passado aos olhos dos racistas.
É um livro abundante em reflexões sobre como o processo longo de colonização nos afeta até hoje, mesmo em níveis mais sutis. Gabriela não tem medo de expor sua vida e suas reflexões neste livro maravilhoso, que incomoda certamente aonde deveria.
Resumidamente, é um ótimo ensaio pessoal, com pitadas de autoficção apimentadas e angustiantes, com reflexões importantíssimas costuradas com o talento da escritora.
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Sobre a Escritora
Gabriela Wiener (1975) é uma premiada jornalista e escritora de Lima, Peru. Autora de diversos livros e um conhecido nome entre os novos cronista latino americanos, sua obra é influenciada por sua vida e experiências. Os temos recorrentes são maternidade, relacionamentos, sexualidades, violência de gênero e racismo.
Outro Livros: Nove Luas (2009), Chamadas perdidas (2014), Sexografías (2008), Ejercicios para el endurecimiento del espíritu (2016)
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